A R(AI)Z da madeira: Ai Weiwei e o Brasil (1/2)

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A R(AI)Z da madeira: Ai Weiwei e o Brasil (1/2)

Fiquei sabendo da individual de Ai Weiwei em São Paulo através de Hugo França. Nunca imaginei que houvesse alguma conexão entre Hugo, brasileiro mestre da madeira, e Ai, chinês mestre da arte ativista. Mas vivemos em tempos híbridos e esse encontro existe não só no plano das ideias como na linha da colaboração efetiva.

Brasil e China, afinal, não são ideias assim tão distantes. Para além do capital chinês que compra vastas extensões de nosso país e de nossos recursos naturais neste exato momento da história, talvez existam laços mais fundamentais e esteticamente mais significativos entre estas distantes repúblicas. Talvez.

Ai Weiwei em um de seus mais icônicos retratos de registro.

Ai Weiwei em um de seus mais icônicos retratos de registro.

Quem sabe este laço não comece, de fato, pela madeira? A madeira no corpo da obra de Ai Weiwei é muito mais importante do que imaginamos. Em sua exposição individual aberta até janeiro de 2019 na Oca do Parque do Ibirapuera isso fica evidente. A madeira é material de destaque nas diferentes fases de sua obra e em diferentes dimensões. Sendo domada por distintas técnicas, a linguagem escultórica de Ai dialoga em diversos momentos com a movelaria e o design, mas sua conexão com a madeira transcende a questão cotidiana do móvel, dirige-se para a substância que é essência de seu trabalho: a ideia. Depois, a madeira move-se ainda mais profundamente para uma dimensão ainda mais essencial de sua origem, apontado para a árvore e para a raiz - isso para não falarmos da semente. Mas a raiz, aliás, se faz presente não apenas fisicamente no andar subsolo da Oca onde compõe o espaço mais monumental da exibição, como também ao dar nome à própria individual - que, diga-se de passagem, é a maior já montada pelo artista em toda a sua história em qualquer parte do mundo. Não podemos deixar passar essa informação e, por isso, se faz justificável um tanto mais de esforço da nossa parte para tentar encaixar China no Brasil, Ai Weiwei em Hugo França.

Hugo revela a madeira mais como árvore do que como móvel enquanto Weiwei revela a madeira mais como ideia do que como matéria.
Hugo França em seu atelier em Trancoso, selecionando raízes como suporte o artista Chinês.

Hugo França em seu atelier em Trancoso, selecionando raízes como suporte o artista Chinês.

O trabalho de Ai é potente, politizado e urgente - como é o caso de “The Law of the Journey”, um gigantesco bote inflável com imigrantes igualmente infláveis que flutuou por 24 horas no lago do Parque Ibirapuera na inauguração do evento e que tem como foco simbolizar a urgente questão migratória na Europa. Ou em “Straight” obra apresentada integralmente pela primeira vez, onde vergalhões recolhidos dos escombros da escola Sichuan na China após terremoto que levou a vida de cerca de 5 mil crianças. De modo mais íntimo, mais com uma aura suave de ativismo vemos sua série de “S.A.C.R.E.D.” onde apresenta uma série de dioramas com o registro de seu cotidiano no período da prisão por censura em sua terra natal em 2011. Hoje exilado, Ai leva a China para todo o lugar por onde anda. Como ele mesmo diz, a China é uma ideia. Mas com toda esta carga ativista e política que se desenrola por toda a exibição, não podemos deixar de imaginar que as obras, as frases e as raízes que ali se apresentam não possuem elas também algo de político especificamente orientado ao Brasil neste momento politicamente tão delicado de nosso país.

The Law of the Journey, um gigantesco bote inflável com imigrantes igualmente infláveis que flutuou por 24 horas no lago do Parque Ibirapuera antes da abertura da maior exibição individual do artista.

The Law of the Journey, um gigantesco bote inflável com imigrantes igualmente infláveis que flutuou por 24 horas no lago do Parque Ibirapuera antes da abertura da maior exibição individual do artista.

A decisão de Ai, por exemplo, de ignorar o inglês e assumir o português como legenda e motivo de algumas de suas obras na exibição nos apresenta uma surpreendente vontade de conexão entre o artista chinês e o Brasil. Ao mesmo tempo, aumenta o teor de diálogo com nosso momento nacional. Será que secretamente Ai não tenta nos dar a dica de olharmos para as nossas raízes? Será que todas as suas frases ativistas espalhadas pela Oca não ecoam em nossos desejos mais profundos de libertação? Será que esta exposição não nos relembra em momento tão crucial que uma das força da arte é a resitência?

Straight, obra direta sobre a relação precária entre instituições governamentais da China e os mais vulneráveis de seu povo, como as crianças chinesas.

Straight, obra direta sobre a relação precária entre instituições governamentais da China e os mais vulneráveis de seu povo, como as crianças chinesas.

Nesta conexão curiosa entre Brasil e China, volto a lembrar de Hugo e Ai. Hugo tem em sua forma de arte e desenho a revelação do estado bruto da madeira. Hugo revela a madeira mais como árvore do que como móvel. Ai Weiwei revela a Madeira mais como ideia do que como matéria. Além disso, o trabalho documental que é exibido em loop no “andar das raízes” é justamente o trabalho em que Hugo colaborou com Weiwei. Fazendo parte de sua série de árvores fundidas em ferro e levadas ao espaço expositivo, Ai conduz a força monumental da rainha da natureza para o centro do espaço artístico. A Madeira se faz presente como ideia e Hugo ajudou Ai a levar seu trabalho para uma nova dimensão. “Essas suas árvores são ótimas, mas gostaria de te apresentar o que é uma árvore de verdade”. Hugo levou Ai até as matas da Bahia e lhe mostrou um dos dez espécimens de Pequi Vinagreiro de mais de mil anos que são monitorados por Hugo bem de perto.

No vídeo que mostra o trabalho de mais de 6 meses conduzido por uma trupe de mais de 40 pessoas do staff de Ai Weiwei para criar o molde em torno do imenso Pequí vemos imagens intercaladas com a criação do molde do próprio corpo do artista, como se a árvore e o homem estivessem a passar pelo mesmo processo de “eternização escultórica”. O resultado do molde do corpo de Ai, no entanto, se faz presente deitado sobre um colchão ao lado do molde de um corpo feminino que compartilha o mesmo espaço, inspirando um momento de intimidade.

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Do Geek Pop ao Geek Punk: procura-se criadores de mundos!

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Do Geek Pop ao Geek Punk: procura-se criadores de mundos!

Rafael Grampá é um contador de estórias. Estórias assim com “e” mesmo, viu? - e sim! mesmo depois da reforma ortográfica. Mas, talvez mais importante do que isso, seja o fato de que Grampá é um monstro do desenho. O sujeito tem um talento concentrado na capacidade de desenhar que poucas vezes eu vi alguém ter em qualquer área da vida. Ele desenha virtualmente qualquer estilo, ao passo que também desenvolveu seu próprio e continua, mesmo depois de ter consagrado seu traço, a se desafiar, a se desenvolver, a buscar melhorar. É esse senso de inquietude e busca por evolução que o fez se jogar, já há alguns anos, no árduo caminho de contar estórias através da arte do roteiro e da direção cinematográfica.

Sketch do Ciclope Gigante que aparece ao fim do segundo curta-metragem de Grampá, no projeto  Romeo Reboot .

Sketch do Ciclope Gigante que aparece ao fim do segundo curta-metragem de Grampá, no projeto Romeo Reboot.

Se pensarmos que o domínio do desenho nos dá a capacidade de criar mundos na rapidez de um traço, podemos dizer que Grampá já saiu algumas casas na frente no jogo do cinema que, afinal de contas, pode se resumir na arte de criar e entregar novos mundos aos sentidos do espectador.

Com essa arma nas mãos Grampá dirigiu alguns curta-metragens de sua própria autoria. Quatro para ser mais preciso. Estreiou com uma animação, chamada Dark Noir e, ao longo dos próximos anos, dirigiu mais três live-actions de curta duração. Todos patrocinados por marcas - o que dentro do seu ramo, que é o mundo dos quadrinhos e da art novel, não é nenhum crime. Muito pelo contrário, a relação entre consumo, cotidiano e a arte dos comics estiveram sempre de mãos dadas, um alimentando o outro, criando valor e autenticidade num loop belo e positivo.

Seu primeiro curta foi patrocinado pela Absolut, seu próximo projeto pela Axe, depois veio um filme para a Fila e agora, a brilhante peça “Geek Punk” para a Comic Con Experience - e quando falo brilhante não tenho medo de ser acusado por um leviano julgamento, é brilhante mesmo! - principalmente naquilo que um filme de oito minutos protagonizado por “crianças heróis” trajando uma estética que o autor chama de geek punk pode inspirar.

Sketch original dos personagens de  Geek Punk  encomendado pela  CCXP18 .

Sketch original dos personagens de Geek Punk encomendado pela CCXP18.

Existe um brilho nessa peça, na sua estética e na própria direção de arte do filme que, diga-se de passagem, é assinada pelo diretor, que também é o roteirista e o designer dos personagens. Um trunfo relevante do projeto é o styling feito por Ana Wainer que traduziu com eficácia os sketches feitos por Grampá de cada um dos quatro cativantes personagens - encarnando a estética do geek punk no mundo físico. Bingo! Ao ver o curta a sensação que da é: eu quero ver todos os episódios dessa série, agora! (Por favor Netflix, faça um bem a você mesma e assuma esse projeto! - ou quem sabe você Disney? com seu novo e mágico serviço de streaming). O sentimento geral é uma fusão entre a nostalgia elétrica de Stranger Things com o realismo melancólico e fantástico de District 9 e Chappie. Trata-se da criação de um mundo. Um mundo bem executado! - o que em termos de Brasil é algo a ser celebrado! - e daí, a minha necessidade de escrever este pequeno ensaio.

O time de produção e pós-produção está de parabéns por ter trazido com fidelidade o mundo criado por Grampá para a realidade cinemática. É aqui que este filme é brilhante novamente: uma criação de mundo feita em 40 dias por um time de profissionais brasileiros jovens e talentosos é um trunfo por si só. O frescor de entender que nós como brasileiros somos capazes de criar peças com a relevância estética Pop como essa peça apresenta me energiza. Energia que toca um tema cujo qual nós somos um dos maiores consumidores do mundo: a cultura geek pop. Lembrando que a Comic Con Experience, patrocinadores desta peça, já é a maior feira de cultura geek do planeta - passando todas as outras Comic Cons do mundo em tamanho, inclusive a Comic Con de San Diego, berço original da franquia e maior do mundo em público até ano passado.

Sketch original, Rafael Grampá®

Sketch original, Rafael Grampá®

Tudo isso me dá esperanças de que estamos, neste quesito ao menos, em um caminho de prosperidade estético-cultural - e se você acha que os quadrinhos ou os filmes de super heróis não são cultura, eu sugiro você ir ao MIS e visitar a exposição Quadrinhos, em cartaz até março de 2019, para sacar um pouco da onde nasce o movimento que é chamada hoje de a “nona arte”. Se você ainda assim acha que o consumo disso daí é colonialismo cultural, eu convido você a visitar também a própria Comic Con que acontece agora e todos os anos em dezembro, para você entender a dimensão e relevância do que esses mundos são para os jovens brasileiros. Isso para você não ser pego de surpresa por esse tsunami cultural como você foi pego pelo hecatombe protestante que te fez acordar para o país que você realmente vive depois de nossas últimas eleições gerais.

Sketch original, Rafael Grampá®

Sketch original, Rafael Grampá®

Talvez isso nos ajude a deixar de sermos zumbis culturais que dormem no berço de sonhos expirados e vivem iludidos por um senso de progresso que só traz atraso. Acordemos! Criar mundos é arte! O Pop tem seu lugar e se já estamos entre os maiores consumidores do mundo dessa indústria, que sejamos também os seus criadores! Que deixemos de ser escravos desse sistema, para sermos senhores feudais nos prados da Cultura Pop. Que aceitemos o Pop em todas as suas dimensões. Dos games às telas de cinema, dos conceitos de Andy Warhol às estórias em quadrinho, da Tropicália à Anitta. Para que possamos dominar e não sermos dominados, sendo capaz de criar heróis que inspirem o mundo e que, talvez, façam o próprio mundo respeitar o poder da nossa criação brasileira. É deste soft power que estou falando, o soft power que nos faz capaz de recriar os heróis de nosso tempo. Para que, quem sabe, o próximo “herói da Disney” não seja um cowboy estelar" com um sabre de luz nas mãos mas um índio místico que descerá de uma estrela colorida brilhante. Sendo o Brasil, afinal, o Sonho Americano que, dando errado, deu certo! Evoé!


João Mognon é pesquisador e poeta.

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Espaço

é vagar viver

devagar

de ver

que ainda há vaga

no vácuo

do Ser

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